Ainda que eu tenha comentado sobre alguns veículos elétricos e suas características aqui no blog, não costumo fazer resenhas sobre eles. Mas, após ficar uma semana com o Kwid E-Tech, ficou impossível não registrar a experiência com mais detalhes. De fato, nem tinha me preparado devidamente, com fotos e mais fotos, pois foi a minha semana mais cheia do ano. Também gravei um vídeo despretensioso para o canal Poraquê para registro histórico que está disponível aqui.

Vamos começar pela gentileza do pessoal da Renault, nas figuras da Priscila, do Bruno e do Rodolfo, que foram extremamente solícitos e ágeis em me disponibilizar uma das poucas unidades que já estão no Brasil para teste. Resumidamente, no dia do lançamento do e-Kwid (sim, no documento está escrito e-Kwid), parabenizei a Priscila. E ela, prontamente, comentou que eu deveria testar o carro. Como eu já tinha uma viagem programada para São Paulo no dia 30 de abril, com retorno em 6 de maio, comentei que poderia ser mais fácil me disponibilizarem o veículo na capital paulista do que em Brasília. Para quem não sabe, a Renault me disponibilizou, em Brasília, o novo Zoe para testes. Desta vez, quis facilitar a logística para eles. E deu certo. Na sexta-feira, 29, o Kwid E-Tech já estava na garagem do prédio dos meus pais esperando por mim.

No sábado, 30, cheguei antes das 11h. E, após encontrar meus pais e deixar minha bagagem no apartamento, fui conferir o carro. Primeira ótima surpresa: adorei o visual. A começar pela cor, um verde bem diferente, quase um verde militar, as rodas de liga-leve de 14 polegadas com pneus 175/70 R14, os racks no teto e, claro, o face lift. Com um vão livre excelente, o Kwid E-Tech agrada ao primeiro olhar e se mostra apto para nossas ruas cheias de valetas, lombadas e buracos.

E, por falar em buraco, o Kwid E-Tech vem com estepe na mesma medida, mas com roda de ferro. Coisa rara hoje em dia, pois muitos automóveis elétricos não têm vindo com pneu sobressalente. O pneu fica abaixo de uma tampa no fundo do porta-malas que, para a proposta de um carro urbano, é mais do que suficiente. Pena que o encosto do banco traseiro, embora rebatível, não é 1/3 e 2/3. Nem mesmo 50/50, já que o sofá traseiro é para dois passageiros. Como o Kwid é um carro para 4 pessoas, não conta com cinto de segurança no meio, ainda que tenha espaço para levar uma criança ou pessoa não muito alta.

Fiquei surpreso com a robustez da lataria. Firme. Esperava uma lataria mais fina, que fosse fácil de amassar. Mas, não é o caso. Também gostei do rack no teto. O conjunto todo  transmite uma ótima sensação de robustez e é, realmente, bonito. Sim, o Kwid E-Tech é um carro bonito que parece ser maior do que realmente é.

O interior do veículo conta com um acabamento simples, com plásticos duros, mas honesto. Fiquei satisfeito pelo fato dos retrovisores, vidros e travas das portas serem elétricos. Mas, senti falta dos comandos dos vidros traseiros. Se algum passageiro deixar uma janela traseira aberta, o motorista terá que parar o carro para subir o vidro. Também senti falta dos vidros terem subida ou descida automática. Nem o do motorista é assim e, ao trancar as portas, também não sobem.

Há isofix nos dois lugares do sofá traseiro e o assoalho tem um túnel central com uma pequena elevação de cerca de 1,5 centímetro. Ajustei o banco do motorista para meu uso, um sujeito com 1,74m, e fui para o banco traseiro. Fiquei apertado. Meus joelhos ficaram pressionados contra o encosto do banco do motorista. Porém, não chegariam a tocar as costas do motorista. Já o banco do passageiro estava regulado para uma situação confortável para mim e com bom espaço para quem se sentar atrás.

Ainda falando do interior, a luz de cortesia não é de led. Não sei o quanto um lead acrescentaria ao custo do veículo, mas a iluminação ficaria bem melhor. Os bancos misturam couro ecológico com tecido. Têm uma faixa branca na lateral que confere certa esportividade e são confortáveis. Porém, não possuem ajuste de altura. E falando nisso, o volante também não possui ajustes de altura ou profundidade. Apesar disso, gostei da empunhadura e posição. E, do detalhe da base reta, conferindo certa esportividade.

Algumas boas surpresas: o Kwid E-Tech é compatível com Apple Carplay e Android Auto via cabo USB. E, como me parece ser comum em outros modelos da Renault, é necessário clicar num ícone que aparece entre os APPs no menu do Apple Carplay para retornar à central multimídia do carro. Não espere grandes emoções com a qualidade do som original. Faltam graves, sobram agudos. E, falando sobre recarga e carregadores, o e-Kwid veio com um carregador portátil bivolt de 10A e tomada de 3 pinos também de 10A. E, que maravilha, o carro possui interface CCS 2, de carga rápida, como item de série. No Renault Zoe, por exemplo, a interface CCS é opcional e custa R$ 15 mil. Com a tomada CCS, o Kwid E-Tech pode carregar em corrente contínua a 30 kWh. Já na carga em corrente alternada, o Kwid carrega a cerca de 7 kWh. Muito adequado para sua bateria de cerca de 27 kWh que lhe assegura uma autonomia de 270 km sem esforço.

O carro tem ajustes de altura de farol. E o volante me pregou uma peça: com os comandos semelhantes a um cruise control – vulgo piloto automático – pensei que o Kwid E-Tech brindaria seu motorista com esse recurso. Mas, não. Trata-se dos comandos de um limitador de velocidade que é habilitado por um botão no console do carro, na parte inferior abaixo dos comandos do ar condicionado. Também é possível ligar/desligar o controle de tração num botão ao lado neste espaço que possui uma tomada 12V daquelas tipo “acendedor de cigarro”. O ar-condicionado, claro, é analógico e funciona a contento. O vidro traseiro é térmico e, para encerrar os detalhes do interior, há porta-objetos nas portas e no console central.

Parece, mas não é: o Kwid E-Tech vem com limitador de velocidade e não possui cruise control.

Na hora de ligar o veículo, percebemos que o Kwid E-Tech é um carro “popular”: a chave, que vem num prático chaveiro canivete, precisa ser inserida no comutador de ignição. Pé no freio, é necessário virar a chave até o final e segurá-la por alguns instantes na posição em que o motor de arranque de um carro à combustão seria acionado. Um sinal OK verde se acende no painel e, voilá, é possível selecionar entre D e R no comando giratório que faz as vezes do seletor do câmbio.

E, agora, vem a parte divertida: o e-Kwid arranca vigorosamente. Na verdade, ao engatar D e tirar o pé do acelerador, ele já se movimenta. Mesmo em rampas com uma inclinação mais acentuada. Por falar nisso, o Kwid elétrico tem assistente de partida em rampas que funciona muito bem. Inclusive, se estiver subindo uma rampa de ré. Ao contrário do BMW i3, que mantém o carro freado por poucos segundos, o Kwid fica imóvel até que o motorista acelere. E, ainda falando em rampas inclinadas, o motor não nega fogo: sobe resoluto as mais íngremes ladeiras que encontrei na região da Saúde. E, de fato, elas são beeeeem íngremes.

Vale me deter um pouco nesta parte da arrancada, do torque do Kwid E-Tech. Já tive a oportunidade de dirigir praticamente todos os veículos elétricos à venda no país, à exceção do Mercedes EQC. E o Kwid não deixa nada a dever quando se fala no sorriso que estampa o rosto do motorista ao sair da inércia pisando fundo no acelerador. Para ser sincero, é mais gostoso acelerar o Kwid do que o Zoe. E a arrancada deste pequeno carro é muito mais vigorosa do que a do Fiat 500e que custa R$ 100 mil a mais por ser de outra categoria. Sem exageros, se fosse possível fazer um “test drive cego”, seria fácil o motorista acreditar que estaria dirigindo um carro com mais 100 CV e 20 kgmf de torque, ao invés de um carro com 65 CV e 11,5 kgfm de torque. Em resumo: ao volante, o Kwid E-Tech surpreende! No trânsito de São Paulo, inevitavelmente, e sem fazer esforço, eu sempre era o primeiro a arrancar. E deixava os demais carros comendo poeira (ou poluição?).

Como foi pensado para ser um carro urbano, a direção do e-Kwid é muito, mas muito leve. Tanto que, com o carro parado, se você fizer um movimento brusco de curva e soltar o volante, ele vai seguir movimento giratório por mais um instante. Não tive a oportunidade de pegar uma estrada com o carro, mas creio que a direção não seja progressiva. Outro ponto positivo: apesar de ter um vão livre bem considerável, o Kwid E-Tech faz curvas com segurança. Acredito que isso ocorre pela combinação de entre eixos curto, peso das baterias (pouco menos de 200 Kg) no assoalho, o que colabora para um centro de gravidade mas baixo, e suspensão firme.

Algumas características do Kwid E-Tech chamam a atenção: primeiro, sua bateria não tem refrigeração ativa. Pelo menos, quando meu parça Clemente e eu escrutinamos o carro, não vimos nenhum tipo de tubulação do sistema de arrefecimento direcionado para a bateria de alta tensão. E chamou a atenção o fato do Kwid E-Tech ter um servo freio. Nos carros à combustão, o servo freio é responsável por multiplicar a força aplicada ao pedal de freio deixando-o mais leve.  Para isso,  conta com a pressão oriunda do funcionamento do próprio motor, no caso, da sucção gerada pelos pistões para queimar o combustível no interior do motor combinada à pressão atmosférica. Mas, um motor elétrico não tem pistões e nem queima combustível, certo? Sim. Então, a Renault instalou uma bomba de vácuo para poder fazer o sistema funcionar. Provavelmente, a solução – funcional – tem um custo menor do que um sistema totalmente elétrico. Aliás, foi impossível não me lembrar das minhas antigas Land Rover Defender, que também têm uma pequena bomba de vácuo acoplada ao bloco do motor. Por fim, chamou a atenção os cabos do sistema de abertura do capô e da grade frontal, essa última que cobre a interface de recarga, serem fixados no cofre do motor com silver tape. Não sei se isso será assim nos veículos efetivamente vendidos por aqui, ou se é algo específico desse modelo importado para o lançamento, testes e homologação.

Ainda falando sobre o cofre do motor, há espaço de sobra que poderia ter sido utilizado para um “frunk”. Mas, possivelmente, assumir um compartimento para pequenos objetos sob o capô dianteiro implicaria reforços estruturais para evitar problemas em caso de acidentes. E, vamos lembrar: ainda que o e-Kwid faça seu motorista esquecer que é um carro “popular”, ele é o elétrico mais barato do mercado. E isso tem (ou deixa de ter) custo.

Meu veredito é que o Kwid E-Tech vai ser um grande sucesso! Principalmente para uso de frotas e motoristas de aplicativo, caso seja possível utilizar um carro de 4 lugares para essa finalidade. E, também, será um sucesso para quem utiliza o carro diariamente e não quer mais queimar dinheiro com combustível. Golaço da Renault!!!

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