Greve dos caminhoneiros e a prova de fogo do carro elétrico.

De uma semana tranquila em meio ao caos urbano, a uma viagem de quase dois mil quilômetros: as vantagens da mobilidade elétrica nunca foram tão evidentes.

Como a maioria dos brasileiros que possuem carro, uso meu veículo para deslocamento urbano em mais de 90% do tempo e também não fiquei nada preocupado durante os primeiros dias da paralisação dos caminhoneiros.

Mas há uma diferença: há exatos dois anos comprei um carro elétrico (ou híbrido, devido ao fato desta versão possuir um extensor de autonomia que utiliza um pequeno motor à combustão). E todas as vantagens da mobilidade elétrica, que sempre defendi na teoria, tiveram sua prova prática e definitiva na última semana.

À medida que os dias foram passando, os postos de combustível fechando, alguns alimentos sumindo das prateleiras e os ônibus deixando de circular, de repente, todos se deram conta de que usar o carro não era mais uma tarefa trivial. Ou, no mínimo, exigiria cautela e planejamento. Sem falar de sorte e resiliência, para o caso de se encontrar algum posto de combustível com etanol ou gasolina disponíveis, enfrentar enormes filas para abastecer e, ainda por cima, aceitar, passivamente, o estupro financeiro imposto pelos preços abusivos cobrados pelo precioso líquido bombeado para o tanque do seu veículo.

De fato, não senti absolutamente nenhum impacto no meu dia-a-dia. Nem na falta de gêneros de primeira necessidade, pois havia feito compras logo no início da paralisação e, muito menos, em restrições ao meu deslocamento. Até ofereci (e dei) carona para algumas pessoas e aproveitei para fazer alguns posts com o objetivo de sensibilizar a opinião pública no sentido de pressionar o governo para que a tão prometida – e eternamente postergada – Rota 2030 e sua redução de IPI para veículos elétricos seja publicada. Sempre com o cuidado de não ser arrogante, pois não se deve tripudiar sobre o sofrimento alheio.

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Um dos posts que fiz chamando a atenção para o IPI Zero para veículos elétricos.

Em meio à maior crise de abastecimento que o país já viveu, a população começou a perceber como é perversa a dependência de combustível. E era o momento de tentar conquistar, de vez, corações e mentes de todos para os veículos elétricos. Realmente, perdi a conta de quantas pessoas me abordaram na rua, nos semáforos, no meu condomínio, ao me verem dirigindo um veículo que é abastecido na tomada.

Como nem tudo são flores, havia programado uma viagem para a serra de SC no final de semana prolongado do feriadão. O i3 tem uma autonomia de até 150 km na bateria somada a até 140 km adicionais providos pelo extensor de autonomia (REx – Range Extender). Mas o REx usa gasolina, pouca é verdade, mas usa. São nove litros em seu mínusculo tanque. E, na quarta-feira, dia 30, foi minha vez de enfrentar uma fila para abastecer o tanque e um galãozinho de cinco litros que levo no porta-objetos sobre o capô dianteiro. Deus ajuda a quem cedo madruga certo? Certo, pois às 5h45min da manhã, a fila no posto de combustível estava pequena e abasteci rapidamente. Claro que isso também chamou a atenção de quem estava presente: um carro elétrico abastecendo com gasolina. E, mais uma vez, foi uma boa oportunidade para explicar que, na cidade, não utilizo gasolina MESMO. Mas para viajar, infelizmente, sou obrigado devido à ínfima quantidade de eletropostos de carga rápida existente no país.

Quinta-feira, feriado, eu e minha namorada Renata pegamos a estrada rumo à Santa Catarina antes das 6h. Mas, desviamos um pouco a rota e passamos em Curitiba. O motivo era conhecer um dos primeiros eletropostos de carga rápida que a COPEL, empresa distribuidora de energia elétrica do Paraná, está implantando ao longo de uma rota entre Paranaguá e Foz do Iguaçu. A COPEL está criando, assim, um “corredor elétrico” que permitirá cruzar o estado de leste a oeste com carros elétricos sem risco de ficar sem bateria ao longo do caminho. Chegando lá, havia um veículo carregando. Por sorte, um Renault Zoe, da própria empresa, que utiliza carga em corrente alternada. E como o carregador suporta, simultaneamente, uma carga desse tipo e uma carga rápida em corrente contínua, não tive problemas para carregar meu carro.

 

Aproveitei a oportunidade e combinei com um rapaz que mora em Curitiba para ir ver meu carro, pois o coloquei à venda. Caaaalma. Não abri mão da mobilidade elétrica, mas tenho outras prioridades no momento que demandam um dinheiro extra. E o i3 ainda é um carro bastante valorizado. Se, de fato, eu vendê-lo, na primeira oportunidade pegarei outro carro elétrico, de qualquer marca, que estiver com o preço mais acessível. Sem surpresa nenhuma, o sujeito ficou encantado com o carrinho. Mas ainda não foi desta vez que o vendi.

Retomamos a viagem com 99% de bateria. E, para nossa sorte, deste ponto até Florianópolis dá para ir quase totalmente em modo 100% elétrico. E isso se deve ao fato da Celesc ter implantado três, TRÊS, eletropostos no caminho. Dois ficam na BR-101 e um na entrada de Florianópolis.

Com a confiança no carro adquirida ao longo de 2 anos e 26 mil quilômetros, além de saber com precisão a distância até o primeiro desses eletropostos, chegamos lá  com meros 6% de carga na bateria. O REx, que é acionado automaticamente quando a bateria chega a 7%, entrou em operação. Mas não ficou em uso por mais do 5 minutos. E não gastei nem meio litro de gasolina. Esse eletroposto fica no posto Sinuelo da BR-101 sentido sul. Foi nossa parada para almoço também, pois o posto conta com um bom restaurante que, infelizmente, estava visivelmente afetado pela falta de abastecimento de alimentos.

 

Saímos de lá com quase 100% de bateria novamente. E, cerca de 93 quilômetros adiante, paramos para recarregar no eletroposto de carga rápida disponível em Porto Belo, na BR 101, Km 156, sentido norte. Apesar de estar no lado oposto da estrada, o acesso é fácil e sem grande deslocamento. O mesmo vale na hora de retomar o sentido sul da rodovia, após a recarga.

Fiquei sabendo pelo gerente do posto que a cobrança pelas recargas deve ser feita apenas em 2020. Imagino que seja devido à expectativa de haver uma frota maior do que as poucas centenas de veículos BEV e PHEV (googla aí que vai descobrir o que significa) existentes no Brasil atualmente e, também, de uma regulamentação que lhes permita cobrar pela recarga.

 

Deste ponto em diante, por termos gasolina suficiente para chegar até o destino, resolvemos não perder mais tempo com uma recarga em Florianópolis, local do terceiro eletroposto de carga rápida catarinente. E seguimos viagem serra acima com o valente REx e seus míseros 34 HP tentando compensar a acentuada perda de bateria. Diga-se, de passagem, que o motorzinho é valente e econômico (entre 16 e 19 km/l) e desempenhou seu papel a contento. Quando já tínhamos autonomia de bateria para chegar ao destino, deixamos de utilizar o REx e chegamos muito bem, amparados por um longo trecho em declive até a cidade de Urubici que era nosso destino.

Aqui cabe uma observação: meses antes, ao reservar a pousada, expliquei que poderia ir de carro elétrico e que precisaria de uma tomada no estacionamento. Com toda a atenção e simpatia do mundo, o Paulo e a Marcia, proprietários da pousada Paulo Lagoa, me cederam sua própria vaga, coberta, com uma extensão prontinha. Por ser uma tomada de 10 amperes, reduzi a potência da recarga, que pode ser configurada no painel do carro, e recarreguei durante a noite. Para minha surpresa, a carga lenta me proporcionou uma ótima autonomia. Mesmo com mínimas de temperatura que ficaram entre 12ºC nos primeiros dias a 4ºC no último.

 

Em Urubici reabastecemos o tanque do REx e o galãozinho. E fomos rodar pela região nos dias que se sucederam. No sábado, desci a Serra do Rio do Rastro e pude constatar que a perda de energia na subida da serra é maior do que o dobro do que se obtém com a regeneração de energia no trajeto de descida. Colocando em números, recuperei 16% de bateria descendo a serra. Mas teria perdido mais de 40% na subida se não tivesse utilizado o REx.

Fizemos o trajeto em bate-volta, descendo e, em seguida, subindo. Voltamos ao mirante da Serra do Rio do Rastro no horário de almoço e com pouca bateria. Assim, pedi ao pessoal do restaurante que existe no mirante, e onde almoçamos, para utilizar sua tomada para recarga. Fui prontamente atendido e soube que proprietários de Motorhome fazem isso com frequência. Então, a cultura do empréstimo da tomada para uso alheio já existia no local. Só mudou o tipo de veículo usuário dessa “chupeta”. Usei minha extensão gigante, reduzi a potência da recarga e, enquanto almoçamos, ganhei alguns preciosos pontos percentuais de carga de bateria que me permitiram seguir viagem rumo a São Joaquim.  Já nessa cidade, fomos visitar a vinícola Villa Francioni. E, mais uma vez, pedi – e fui atendido – uma tomada para recarregar parcialmente meu carro enquanto fazíamos a visitação. Essas duas recargas parciais nos permitiram fazer todo o percurso usando cerca de metade do tanque do REx. Sensacional!!

 

No domingo, final do feriado e depois de rodar bastante pela região, fomos para Joinville.  E, apesar de ter usado o REx, tenho convicção de que seria possível ir em modo 100% elétrico até o eletroposto de Florianópolis e, assim, de lá até Joinville. Minha convicção se deve à topografia do caminho, que apresenta muito mais declives do que aclives. Ainda que possa ser necessário dirigir com uma tocada leve, acredito que é viável e fiquei muito tentado a testar minha teoria em outra ocasião.

Aproveitei a oportunidade da viagem para agendar a revisão obrigatória, a última antes do término da garantia do veículo, na concessionária de Joinville. Duas observações importantes: primeiro, a BMW oferece garantia de dois anos para o veículo todo, menos para a bateria. Essa possui garantia de 8 anos ou 100 mil km.  Segundo, a Euro Import, concessionária BMW de Joinville, havia sido visitada por alguns amigos da ABRAVEI. E eles saíram encantados com o atendimento que receberam. Assim, foi uma decisão bastante segura deixar o veículo para revisão lá. Claro que voltamos para São Paulo de avião, da mesma maneira como vou buscá-lo, no próximo sábado, dia 9. E voltarei dirigindo com o prazer de saber que, ainda que não possa fazer o trajeto Joinville – São Paulo inteiramente em modo elétrico, meu consumo de gasolina será extremamente menor do que qualquer carro existente no Brasil, seja ele comum ou híbrido do tipo convencional. Mas tenho certeza de que ainda teremos um corredor elétrico que ligará os estados de São Paulo e Paraná.

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i3 na concessionária. Impressionante a performance do carro.

PS: Na concessionária Euro Import, pedi ao técnico especialista na linha i da BMW, o Anderson, que olhasse TUDO no meu carro, já que era a última revisão dentro da garantia. E recebi o diagnóstico que o carro está impecável de elétrica, eletrônica e mecânica.   🙂

2 comentários sobre “Greve dos caminhoneiros e a prova de fogo do carro elétrico.

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