Mobilidade elétrica: um legado.

Johnson demonstrates how the perspectives and experiences of Don Quixote and Sancho Panza are shaped by the events and crises of their immediate historical context.

Alguns amigos já me perguntaram se eu ganho algo pelo meu engajamento com a causa da mobilidade elétrica. Com certeza, não ganho dinheiro com isso, infelizmente. Aliás, só gasto, pois na nossa associação (ABRAVEI), o trabalho dos membros da diretoria é pro bono e feito em nosso tempo livre.

Mas, ganho networking e amigos tão ou mais malucos do que eu. Ganho oportunidades de ver e pensar fora caixa. Mas, ainda mais importante, ganho a oportunidade de deixar um legado para minha filha. De ajudar, de alguma maneira, a deixar um mundo melhor para ela do que eu encontrei.

Não sei ao certo quando passei a me interessar por mobilidade elétrica. Meu primeiro veículo elétrico foi uma bicicleta, comprada há cerca de quatro anos, que ainda possuo e com a qual vou algumas vezes por mês ao meu trabalho. Mas, refletindo agora, vejo que minha motivação pelo tema aconteceu como resposta a uma indignação com o pré-sal. Quando nosso ex-presidente-atual-presidiário alardeou ao mundo que tínhamos reservas gigantescas de petróleo a 10 mil metros de profundidade em nosso oceano, achei a simples idéia de prospectá-lo um absurdo. O risco ambiental inerente à extração nessa profundidade abissal não fazia o menor sentido. Ainda mais se lembrarmos que nosso país tem um potencial de geração solar e eólica gigantesco .

De alguma maneira, veículos elétricos são uma resposta ao pré-sal por termos um país com matriz energética predominantemente hídrica. E, graças a Deus, a energia eólica e a microgeração distribuída por meio de usinas solares vêm crescendo ano após ano no Brasil.

À minha indignação com o Pré-sal somou-se outra, um escandaloso e triste fato: 11 mil pessoas morrem por ano na grande São Paulo por causa da poluição. E 73% dela é causada por carros que, no entanto, só transportam 30% da população. Matérias aqui: Carros levam 30% dos passageiros, mas respondem por 73% das emissões em SP e Poluição no ar mata 11 mil por ano em São Paulo.

Aí voltamos aos veículos elétricos. Eles podem ajudar a salvar vidas e reduzir a dependência do petróleo, além de vários outros benefícios que nem vou descrever agora. E, mesmo que seja um tanto utópico, idealista ou mesmo quixotesco, tenho/temos meios de influenciar de alguma maneira o desenvolvimento da mobilidade elétrica em nosso país. Prova cabal é a recente conquista da ABRAVEI na figura de nosso colega e membro da diretoria, Rogério Markiewicz. Arquiteto e Membro do CAU-DF (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do DF), ele conseguiu com sua obstinação e articulação influenciar a publicação da primeira legislação urbanística que trata da Mobilidade Elétrica em uma unidade da federação: Decreto 39.272 de 02/08/18 que regulamenta a Lei 6.138 – Código de Obras e Edificações do DF. O decreto determina que “Para estacionamentos e garagens privados com mais de 200 vagas, deve ser previsto 0,5% do total de vagas com ponto de recargas exclusivos para Automóveis Elétricos.” E o decreto está redigido de tal maneira que, se houver 201 vagas, já serão obrigatórias duas vagas para carros elétricos. E com pontos de recarga! Parabéns, amigo!

Por sermos pioneiros no uso de veículos elétricos, principalmente de carros, e por estarmos organizados numa associação, começamos a chamar a atenção do mercado e do governo. Participamos do grupo de trabalho do Rota 2030, cujo resultado – uma ampla política para a mobilidade elétrica – deve ser concluído ainda este ano e apresentado à sociedade. Também estamos no radar de outros atores do setor e, há pouco mais de um mês, uma das maiores montadoras do mundo – a GM – nos chamou para conversar sobre nossa experiência como early adopters e obter alguns insights para o iminente lançamento do Bolt. Aliás, um carro espetacular que tivemos o prazer de dirigir na ocasião.

Não acredito que tudo o que conversamos seja novidade para a GM. Mas, tenho certeza de que demos bastante informação relevante para que o Bolt seja um sucesso. Uma marca como a GM tem o poder de alavancar o mercado, fazendo com que outras montadoras também passem a vender seus modelos elétricos no país. Se nossa conversa com eles ajudar em algo nesse sentido, será mais um feito do nosso grupo de Don Quixotes.

Aliás, nesse grupo unido por um ideal, o que não existe é vaidade. Todos contribuem da maneira que podem: no seu dia-a-dia, esclarecendo as dúvidas dos (ainda) curiosos que não estão acostumados a ver carros que não fazem barulho e não têm escapamento, por exemplo. Outros publicam vídeos sobre o assunto, expõem seus veículos em eventos e encontros automobilísticos ou, ainda, viajam milhares de quilômetros e cruzam fronteiras para costurar um relacionamento continental que nos permita impulsionar a mobilidade elétrica na América Latina. Tenho certeza de que todos, sem exceção, também sentem que estamos deixando um legado para as próximas gerações. E não importa se o carro do futuro será elétrico ou movido a hidrogênio. Não importa nem mesmo se ele será compartilhado, se rodará sobre as ruas ou voará. O certo é que ele não causará a morte de mais nenhuma pessoa como efeito colateral de sua fonte de energia.

PS: escrevi este post ontem e, hoje, saiu esta matéria no Estadão: Eólicas serão 2.ª fonte de energia do País em 2019

7 comentários sobre “Mobilidade elétrica: um legado.

  1. Acabei de conhecer seu blog, e achei muito interessante, acompanho algumas expedições que você faz junto com a ABRAVEI, parabéns e obrigado, até breve

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