Independência ou mor…quer dizer, guincho!

Estou de volta ao mundo dos elétricos. E espero manter o blog com a mesma frequência incerta sobre assuntos aleatórios ligados à mobilidade elétrica como era no início.

Pois bem: vamos às novidades. Graças à querida Gláucia, da General Motors do Brasil, fui o primeiro proprietário do Bolt no país. Ressalva importante: o primeiro, MESMO, é meu colega de ABRAVEI, Marcelo. No caso, ele fez importação direta do carro. Mas, desta leva oficial da GM, divido o privilégio com um sujeito de Curitiba. Aqui está o vídeo que prova o fato e que foi passado na coletiva de imprensa da GM.

Sobre a Gláucia, que eu conheci pelo nosso envolvimento no grupo de trabalho de Eletromobilidade do programa Rota 2030, só posso agradecer por não ter me denunciado às autoridades por terrorismo: “- Gláucia, vendi meu i3 para comprar o Bolt”, “- Gláucia, e aí, quando vocês vão lançar o Bolt?”, “- Gláucia, tem concessionária já vendendo o carro por um preço maior do que o anunciado”…. e por aí vai.

O fato é que, no dia 1º de novembro do ano passado, a GM começou oficialmente a vender o Bolt no Brasil. Mas, só começaram a entregar o veículo no início de março. Detalhe: ao que me consta, foram 50 unidades vendidas na primeira leva. E, dessas, 26 foram adquiridas por associados ou simpatizantes da ABRAVEI (que, espero, tornem-se associados em breve).

OGBE1665
Dia da tão aguardada entrega do carro, na concessionária Vigorito em Santo André.

Pois bem, peguei o carro bem no mês em que me mudaria para Brasília. E com o plano de ficar alternando as cidades: duas semanas na ‘Brasólia’ para uma semana em Sampa. Plano que o COVID-19, ao que tudo indica, vai atrapalhar. Será que o Bolt conseguiria fazer o trajeto entre as capitais? Pesquiso no Plugshare e, depois de Uberlândia, não há nem um mísero ponto de recarga. Nada. Deserto total de mais de 400 quilômetros. E, ao contrário dos BMW i3 que eu tive, não existe a segurança do REx, o motorzinho de 650 cilindradas que, com 9 litros de gasolina, gera energia para mais 140 quilômetros de deslocamento. No Bolt, só há combustível se o motorista inapropriadamente tomar algum destilado forte.

Mas, desde que testamos o Bolt – eu e o Clemente (outro ABRAVEIano) – estávamos confiantes de que ele poderia ultrapassar os 500 quilômetros de autonomia na estrada. Claro, se conduzido de maneira beeeem conservadora, com calibragem alta dos pneus, sem ar-condicionado. Enfim, estávamos convictos de que transformando o carro em uma câmara de tortura e viajando num ritmo de tartaruga com câimbra, o Bolt surpreenderia.

Mas, como na prática a teoria é outra, à medida que se aproximava a data da viagem, começou a me bater um pavor. Clemente deu a dica do site ecalc.ch que, entre outras coisas, calcula a viagem entre dois pontos, com inserção de variáveis como modelo e ano do carro, pressão dos pneus, estado inicial da carga da bateria, degradação da bateria, velocidade do vento, temperatura ambiente, e muito mais. Site de usabilidade horrível mas que, segundo o Clemente, tinha uma precisão absurda.

Ecalc.ch
Exemplo da tela do ecalc.ch para um trajeto no interior de São Paulo.

O planejamento da viagem era simples: partindo de São Paulo com 100% de bateria, tomaria o café-da-manhã no posto Graal do quilômetro 67 da Anhanguera, onde carregaria até próximo a 100%. Depois, carregaria parcialmente em Ribeirão Preto, num carregador semirrápido por umas duas ou três horas, e seguiria para Uberlândia onde pernoitaria e completaria a carga. De acordo com o ecalc.ch, o meu prognóstico para fazer Uberlândia – Brasília não era dos melhores. Dava para fazer o trajeto com uma só carga, mas se eu rodasse a uns 70 km/h.

Nas duas semanas que antecederam minha viagem, tratei de garantir backup para as recargas. Primeiro, em Ribeirão Preto, estaria bem servido: há carregadores nos Shoppings Iguatemi e Ribeirão, bem como num clube de golfe. Em Uberlândia, descobri a belíssima instalação da Alsol. Trata-se de uma empresa do setor de energia solar fotovoltáica que pertence ao grupo Energisa e que conta com um carregador semirrápido da BYD em sua sede. O carregador – e várias outras coisas – é alimentado por uma enorme usina solar em que a energia gerada é armazenada em containers com bateria para uso à noite. Para algumas aplicações específicas, também possuem um grupo gerador que usa biodiesel B100 (0% de combustível extraído de fontes minerais). Descobri que, coincidentemente, o CEO da Alsol, Gustavo, estava no grupo de WhatsAPP aberto que a ABRAVEI criou há três anos para abrigar qualquer entusiasta de mobilidade elétrica. O grupo cresceu muito e é extremamente profícuo, com integrantes de altíssimo nível.

Minha ideia era carregar no estande da construtora Brasal, em Uberlândia. Se tudo desse certo, tomaria um café com o Gustavo para conhece-lo e à Alsol. E, em tudo dando errado (com o carregador da Brasal), faria o mesmo, mas carregaria na sede da empresa, ainda que o carregador fosse de uso privativo, gentilmente cedido para meu uso.

Entre Uberlândia e Brasília era o maior problema. Liguei para o Posto JK em Catalão – GO. E a pessoa com quem eu falei e a quem pedi para usar uma tomada comum por uma ou duas horas disse que o “dono do posto não deixa nem cliente carregar o celular”. Tentei, então, o Posto JK em Cristalina, também em Goiás. Desta vez, o gerente – Sr. Geraldo – foi muito gentil e permitiria que eu usasse a tomada. Apesar de não precisar, acabei descobrindo mais um ponto de recarga em Ribeirão Preto. E também na sede de uma empresa de sistemas solares fotovoltaicos, a Latin America Solar, do Junior. Também combinei de ir visita-lo brevemente e, se fosse o caso, usar seu carregador como backup do backup. Ou, pelo menos durante nosso papo.

Com duas semanas de antecedência, já tinha tudo planejado, com backup e pouca margem para imprevistos. Mas, quem poderia imaginar que surgiria o tal COVID-19 que, importado da China e Europa, faria o Brasil inteiro entrar em quarentena? Assim, dois dias antes da viagem, 19 de março, o Junior me avisa que seus funcionários estavam em isolamento e não tinha terminado a instalação do carregador. E, neste momento, fiquei apavorado. Não pelo fato de não ter o carregador da Latin America, mas pela possibilidade dos demais locais com ponto de recarga na cidade estarem fechados. Liguei para o Shopping Iguatemi e estaria fechado. Liguei para o clube de golfe, e estaria fechado. Apelei para Eurobike, concessionária Jaguar Land Rover da cidade, que tem um carregador rápido CCS. Falei com duas pessoas que foram absolutamente insensíveis com o fato de que eu precisaria, eventualmente, utilizá-los como backup e por menos de uma hora para poder seguir viagem. Desculpas como “a garantia não cobre carros de outra marca”, a um mais sincero “aqui só carrega Jaguar”, mostraram que essa concessionária ainda não entendeu que carros elétricos trazem uma mudança de paradigma tanto nos negócios, como na mentalidade. E que perderam a oportunidade não apenas de ajudarem um usuário de veículo elétrico, independente da sua marca, mas de ganharem um promotor da concessionária e da Jaguar. Ligo para o Ribeirão Shopping e, ufa, a moça que me atendeu me tranquiliza: o shopping estaria, sim, fechado. Mas a entrada 5 do estacionamento permaneceria aberta porque, além do shopping, é utilizada pelo hotel Ibis. E, como descobri depois, atende também ao Carrefour. Não tinha backup em Ribeirão Preto, mas era um risco que estava disposto a correr.

Sábado, 21. Carro com 50 libras em cada pneu e cheio: baixos, guitarra, violão, vasos de planta, (super) cafeteira de espresso e, claro, malas. Acordo cedo, despeço-me dos meus pais tristonhos por ver o filho bater asas novamente, e parto. 5h40min da manhã e estou na rua. Chego no Graal do km 67 da Anhanguera uns 45 minutos depois. Tomo meu café, me enrolo um pouco, e saio de lá em cerca de uma hora com 99% de bateria.

A viagem até Ribeirão Preto foi tranquila. Fui a 90 km/h e, no final das contas, cheguei lá com uma autonomia restante de 290 quilômetros. Teoricamente, poderia até seguir a Uberlândia. Mas, por ser a primeira vez que viajava com o Bolt, achei prudente carregar. Fiquei 2 horas, fiz umas compras no Carrefour para ganhar três horas gratuitas de estacionamento, e saí com 386 quilômetros de autonomia para um percurso total, até o hotel, de 286 quilômetros.

O caminho para Uberlândia é cheio de subidas e descidas. Mantive a paciência de andar aos 90 km/h. Mas a topografia do trajeto me fez perder 27% de autonomia. E cheguei ao destino com 73 quilômetros restantes. Graças ao meu colega, Rogério, consegui o contato do Guilherme, da Brasal. Só por precaução, pedi autorização para usar o carregador do seu estande de vendas, ao que fui prontamente autorizado. Mas, de acordo com o Guilherme, não haveria nenhum vigia cuidando o estande devido ao isolamento provocado pelo COVID-19. Por ser um local aberto e na rua, aliás, deserta como quase toda a cidade de Uberlândia, fiquei receoso em deixar o carro a noite toda carregando ali. Liguei para o Gustavo, da Alsol. Apesar de não poder me encontrar, ele falou que poderia usar as instalações da empresa. Ainda bem. Pois, apenas para conhecer o local e registrá-lo em fotos, fui até o estande da Brasal e testei o carregador. Ele funcionava. Mas, devido ao tipo de configuração (trifásico), ele entregava apenas 2kW de potência para meu carro, que não consegue carregar com todo o potencial neste tipo de carregador. Em resumo, 2kW é como carregar em uma tomada 220V comum e a estimativa era completar a carga na madrugada de segunda-feira (estávamos no sábado de manhã). Ou seja: inviável para meus planos.

Segui até a Alsol sob chuva. Muita. E fui super bem recebido, pois o Gustavo deixara avisada a portaria da empresa que eu chegaria. E, ao chegar, que surpresa: uma bela frota de veículos elétricos bem na entrada: dois sedãs (e5) e dois furgões da BYD, um JAC iEV 40 e um…Bolt. Ops. Aumentamos para 27 o número de compradores do Bolt que, de alguma maneira, estão ligados à ABRAVEI. 😉

Entrei, fui ao final do estacionamento da empresa, onde ficava o carregador, vi os belos painéis solares no terreno ao lado. Mas, o carregador estava desligado. Pânico. Ligo para o Gustavo, que aciona seu pessoal e, em 10 minutos o Remington estava lá tentando me ajudar. Mas, infelizmente, ele não conseguiu restabelecer o serviço. Devido ao temporal que caiu na noite anterior, um sistema de segurança desarmou toda a rede. Fiquei super envergonhado pelo fato de acionarem, desta vez, a equipe de rede. Mas, de acordo com o Gustavo, isso seria necessário de qualquer maneira para que não perdessem a geração de energia do próximo dia, pois o sistema que caiu atendia a toda usina solar. Chegam dois colegas da equipe de rede e, em menos de 15 minutos, estava tudo funcionando. E sob chuva novamente.

Deixo o carro no local, junto com milhares de agradecimentos sinceros à toda equipe, pego um Uber em Uber..lândia e vou para o hotel. Infelizmente, esta primeira leva do Bolt brasileiro não conta com o serviço OnStar que, através de um chip de celular, permite acesso remoto a algumas informações do veículo, inclusive para saber se está carregando. No hotel, tentava desviar o pensamento sobre algum eventual problema no carregamento.

Amanhece, tomo café voando, fico sabendo que a rede desse hotel possuía mais duas unidades e que, das três, fechariam duas temporariamente, realocando os hóspedes em apenas uma unidade. Tempos difíceis que esse vírus está provocando.

Pego um Uber de volta à Alsol, ainda mais barato que na noite anterior, e chego à empresa. Desta vez, não chovia. Aleluia! Confiro a carga e…100%. Ufa. Alívio, gratidão e expectativa para encarar o trecho mais complicado da viagem. Mando mensagens para o Remington e Gustavo informando que tudo ocorrera bem com a recarga e parto para a estrada.

TIEE3212
480 quilômetros de autonomia estimada para um percurso de 427 quilômetros

São 428 quilômetros, porta a porta, de trajeto. Por cerca da metade dele, dirigi alternando entre 80 e 90 km/h. Usei muito a posição Neutro nas descidas, o que torna a condução mais eficiente em termos de economia de energia, reduzia a velocidade em subidas longas e nem pensei em usar o ar condicionado, salvo em alguns momentos para desembaçar o para-brisas. Sim, chovia. E muito. Em alguns trechos, chovia torrencialmente. E, assim, sozinho com meus pensamentos, dirigindo e meditando, observei mais atentamente o consumo e me dei conta de que, se mantivesse 11kW de consumo no painel, a diferença de autonomia e a distância restante ao destino se mantinha. Sim. Com cerca de 250 quilômetros de autonomia para 150 quilômetros até o destino, fui mantendo os 11 kW no consumo e não perdi nenhum metro dessa diferença de 100 quilômetros a meu favor. Na prática, consegui dirigir a 100, 110 km/h em trechos mais planos ou levemente em declive, mantendo a observância de consumir 11 kW e, sempre, reduzia para 80 ou, até 70 km/h, nos aclives mais longos.

Deu certíssimo. E subi minha média horária: até chegar na infinidade de radares de 40 e 60 km/h que se inicia em Luziânia, estava com uma velocidade média de 79,8 km/h. Nada mal, considerando que peguei trechos com caminhões e muita, muita chuva.

Bolt aprovado com louvor nas estradas. E eu um pouco ansioso para termos um ÚNICO posto de carga rápida na região de Catalão para poder fazer São Paulo – Brasília no mesmo dia, aumentando em apenas duas horas o tempo total de viagem em comparação a um veículo à combustão, o que é bem aceitável. Agora, a expectativa é conseguir ser ainda mais eficiente na volta à São Paulo. Mas, isso, se o COVID-19 permitir, se o Dória não fechar as estradas de São Paulo, se não tentarem “impichar” o presidente mas, muito mais importante do que tudo isso: se o Gustavo deixar que eu carregue na Alsol novamente. Nada como a limitação de infraestrutura de recarga rápida nas estradas para os problemas da sua vida tornarem-se muito mais prosaicos.

7 comentários sobre “Independência ou mor…quer dizer, guincho!

  1. Parabéns Rodrigo, que aventura meu amigo! Vamos torcer para que mais e mais postos de recarga sejam implantados não só neste percurso, mas em todos ligando principalmente as nossas capitais. Só uma pergunta….um gerador à diesel ou gasolina no porta-malas não poderia ser um “plano B” para situações como esta?

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