Uma prévia do que podemos ser.

Ou, como Brasília está se tornando a capital da mobilidade elétrica no país

Mudei-me para Brasília há cerca de um mês. Meu post anterior foi, justamente, um relato da viagem de São Paulo para a capital federal com meu carro elétrico.

Brasília é, como diz minha namorida, a ilha da fantasia. Para quem mora no plano piloto – a parte projetada da cidade – a vida é cartesiana e organizada, como os traços de Lucio Costa e Niemeyer. Já eu, penso que essa parte da cidade é um grande Lego, com os prédios em formato dos blocos de brinquedo e dispostos em paralelo ou perpendicularmente numa simetria um tanto quanto entediante.

Mas, o fato é que Brasília proporciona uma ótima qualidade de vida. E uma das últimas iniciativas em prol disso veio de uma parceria entre o governo distrital, ABDI – Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial e o PTI – Parque Tecnológico de Itaipu: o programa VEM DF (Veículo para Eletromobilidade). Tive a oportunidade de participar, junto com o presidente da ABRAVEI, Rogério, da cerimônia de lançamento do programa no dia 7 de outubro do ano passado.

O programa iniciou com a aquisição de 16 Renault Twizy para uso dos servidores do governo do DF em regime de compartilhamento. E prevê a instalação de 35 eletropostos com carregadores fornecidos pela brasileira WEG. Cabe destacar que os Twizy foram alterados para utilizarem o padrão tipo 2 de recarga (IEC 62196) utilizado na Europa e adotado pela maioria dos modelos de carros elétricos à venda no Brasil. E que dos 35 eletropostos do governo, 20 já estão instalados e foram liberados para uso público e gratuito. Só é uma pena que, assim como acontece com vagas reservadas para cadeirantes e idosos, os motoristas de carros à combustão não respeitem as vagas destinadas aos carros elétricos nos locais onde há os carregadores do VEM DF.

Não sei qual é a economia específica que os Twizy estão trazendo para o governo. Mas o custo por quilômetro rodado nesse estiloso quadriciclo tende a ser 1/5 em comparação a um carro convencional. Segundo o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, se toda a frota do DF fosse eletrificada, a economia anual com combustível chegaria a R$ 2,1 milhões. E essa afirmação não considera a economia com a manutenção, pois os Twizy, como qualquer veículo elétrico, não têm óleo, filtro de óleo, filtro de ar, velas e várias outras peças e consumíveis que necessitam de troca ou revisão periódica.

Com o VEM DF, Brasília é como um vislumbre de um futuro próximo e muito desejado para nosso país. E, para a solução de mobilidade elétrica do VEM DF ser perfeita, só faltaria os carregadores serem alimentados por energia solar fotovoltaica.

Ah, sim. Brasília também tem outra qualidade: é uma cidade ótima para se andar de carro. Com ruas largas, bom asfalto (no geral), velocidades máximas decentes e pouco ou nenhum engarrafamento, cruzar a cidade de norte a sul ou de leste a oeste é muito rápido. Junte uma cidade assim, um carro elétrico com mais de 90% de carga na bateria, o isolamento social provocado pelo COVID-19 e pronto: tá feita a receita para sair e dar uma volta. E, assim, resolvi gastar um pouco de bateria conhecendo alguns dos eletropostos do VEM DF na Sexta-feira Santa.

Peguei o carro e fui para a Esplanada dos Ministérios. Primeira parada: Ministério da Ciência e Tecnologia. Carregador ligado e funcionando perfeitamente. É importante frisar que, para usar os carregadores do VEM DF, o usuário precisa ter seu próprio cabo. E eu tinha. Graças à Electricus, do Evandro. 😉

Próxima parada: Ministério da Infraestrutura. Opa, o carregador deste local estava desligado e reportei o fato ao nosso colega e associado da ABRAVEI, Eloir, que trabalha na WEG, em nosso grupo de WhatsAPP. Não demorou nada e, em seguida o Rogério me manda mensagem para nos encontrarmos no carregador da SEDUH – Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação. Dez minutos depois, lá estávamos nós. Testamos o equipamento em apenas um dos carros. Depois, fomos curtir o pôr-do-sol na Praça do Cruzeiro e colocar o papo em dia.

Querendo uma desculpa plausível para obter um habeas corpus de nossas prisões domiciliares em tempos de COVID-19, a pedido do Eloir, Rogério e eu combinamos de testar os carregadores do VEM DF com cargas simultâneas no dia seguinte. Mas não só isso: também combinamos de dar uma volta com mini-scooters elétricas enquanto deixávamos os carros no eletroposto.

Assim, no sábado à tarde, nos encontramos no Ministério da Ciência e Tecnologia. Colocamos os carros para carregar e descobrimos que a carga era dividida entre os dois veículos. Como a potência era dividida, o tempo de recarga fica muito maior e pouco prático para um carregador público. Reportamos mais este fato ao Eloir e, de acordo com ele, a divisão da carga entre os dois veículos era algo simples de resolver a partir de uma alteração na configuração no equipamento. O carregador da WEG, ainda segundo o Eloir, suporta dois carros carregando simultaneamente a até 22 kW/h. Então, combinamos um novo teste tão logo ele fizesse a alteração nas configurações de um dos carregadores, o que pode ser feito remotamente, como de fato foi. Um viva para a tecnologia brasileira da WEG!!! E um viva para a justificativa plausível de um novo habeas corpus!!!

Mas, como o novo teste ainda precisava ser programado, deixamos nossos carros no eletroposto do Ministério da Ciência e Tecnologia e fomos passear sobre duas rodas por alguns cartões-postais da cidade: Congresso Nacional, Palácio da Alvorada, Esplanada dos Ministérios… Tudo com pouquíssimo trânsito e um asfalto impecável. Na volta, guardamos as mini-scooters e fomos conferir o carregador do Ministério da Infraestrutura. Desta vez, estava ligado, mas igualmente dividindo a carga entre os dois carros, o que também foi reportado ao Eloir.

Três dias depois, em plena quarta-feira, o Eloir nos chama no WhatsAPP e pergunta se poderíamos testar o carregador do Palácio do Buriti. Nem pensamos duas vezes, Rogério e eu, e no horário do almoço combinamos de nos encontrar lá.

O Palácio do Buriti conta com dois carregadores do VEM DF. Cheguei primeiro ao local e já me deparei com dois Twizy devidamente protegidos com capas. Um deles, inclusive, em processo de recarga. Logo em seguida, chegou o Rogério. Plugamos os dois Bolt e bingo! Os dois carros estavam recebendo 7kW/h cada, que é a capacidade máxima do inversor do carro para cargas em corrente alternada. Provavelmente, os demais carregadores do VEM DF terão suas configurações atualizadas conforme os carregadores do Palácio do Buriti.

Depois de uns 15 minutos, chegou o Thiago, da ABDI, um dos responsáveis pelo projeto. Conversamos um pouco sobre as características do Bolt e de outros carros elétricos disponíveis no país, elogiamos muito a iniciativa do VEM DF e despedimo-nos com o anúncio de que a ABDI vai realizar projetos semelhantes em outras cidades. Golaço para a mobilidade elétrica! Golaço para nosso Brasil! E de volta à prisão domiciliar torcendo para o Eloir nos pedir para fazer mais testes em outros carregadores.

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