Sabe aquele papo de que carro elétrico não é para viagens? Já era!

Um dos argumentos que os defensores mais ferrenhos do cano de descarga usam contra os carros elétricos é o da baixa autonomia, o que inviabilizaria viagens e deslocamentos maiores.

De fato, num país carente de infraestrutura de recarga rápida como o nosso, a primeira geração dos carros elétricos estaria em apuros. Quando falo da primeira geração, me refiro aos i-Miev, BMW i3 e qualquer outro com baterias de capacidade inferior a, pelo menos, 40 kWh.

Mas – que ironia – não é que os carros elétricos também evoluem, como qualquer outra tecnologia? E o Chevrolet Bolt, que já tinha respeitáveis 383 km de autonomia pelo ciclo EPA, ganhou, no modelo 2020, um incremento de 10% em sua imponente bateria de 60kWh, passando para 66kWh e 416 km de autonomia no mesmo ciclo.

O ciclo EPA, sigla para (United States) Environmental Protection Agency, é um dos métodos mais realistas ao estimar a autonomia de um carro elétrico, junto com o WLTP – Worldwide Harmonized Light-Duty Vehicles Test Procedures. Aqui tem uma matéria em inglês sobre o ciclo EPA: https://www.myev.com/research/buyers-sellers-advice/how-the-epa-rates-electric-vehicles

De qualquer maneira, qualquer que seja o ciclo usado, ele nunca vai considerar a carga total no veículo, a degradação da bateria, diversas temperaturas ambientes, uso do ar condicionado e uma calibragem alta dos pneus. Por isso, estava confiante de que os 416 km estimados do Bolt poderiam ser, digamos, esticados. E resolvi tentar ampliar esse limite.

No último final de semana, morrendo de saudades da minha filha e dos meus pais, resolvi visitá-los em São Paulo. Saí de Brasília com carga total rumo a Uberlândia. A cidade está estrategicamente localizada pois, a partir dela e contando com a possibilidade de recarga na belíssima infraestrutura da Alsol Energias Renováveis, é possível seguir com tranquilidade até Ribeirão Preto. E de lá, após umas duas horas de carga semirrápida, chegar até o posto Graal na rodovia dos Bandeirantes, que conta com um carregador rápido. Aí, depois de uma hora e mais 56 quilômetros e chega-se à capital paulista com autonomia mais do que suficiente para rodar uma semana inteira. Ainda mais em tempos de isolamento social, em que quase não se usa o carro.

Até Uberlândia, como já imaginava, foi uma viagem tranquila. Sem sustos e, mesmo com uso do ar condicionado em uns 20% da viagem e com velocidade de cruzeiro de 100 km/h sempre que permitido, ainda cheguei com mais de 50 quilômetros de autonomia.

Combinei com o Gustavo, da Alsol, de conhecê-lo pessoal e finalmente. E após algumas horas de descanso no hotel, nos encontramos na sede da empresa. Vale a pena mencionar que ele tem um dos raríssimos cinco – sim, CINCO – i3 BEV modelo 2015 que vieram para o Brasil. E com apenas 25 mil quilômetros rodados.

Faltou tempo para ouvir todas as histórias do Gustavo. São muitas e impressionantes.

Figuraça, o Gustavo e a Alsol trabalham com sistemas solares fotovoltaicos e estão desenvolvendo projetos ligados à mobilidade elétrica. Isso deve dar dinheiro, claro. Mas, mais claro, é ver que não é essa a motivação dele e, sim, sua paixão pela geração limpa e sustentável. Idem para a mobilidade elétrica. Deixei o carro na Alsol para carga durante à noite e ainda ganhei uma carona para o hotel.

Na manhã seguinte, peguei o Bolt 100% carregado e, por volta das 8 horas, parti. Destino: posto Graal do km 56 da Rodovia dos Bandeirantes. Objetivo: fazer o trajeto de 533 quilômetros sem parada para recarga em Ribeirão Preto. Detalhe: o Luiz Bechelli, meu ex-colega de trabalho e amigo, mora em Ribeirão. E, ao ver meu post do Facebook no sábado à noite, em que anunciava que iria tentar fazer esse percurso, falou que me esperaria com um churrasco no domingo. Oh, tentação!! Algumas das melhores cervejas que já provei foram proporcionadas pelo Bechelli.

Saí de Uberlândia com o “adivinhômetro” do carro me dizendo que minha autonomia era 100 quilômetros menor do que o percurso que o Waze informava. Mas, confiante na eficiência do Bolt e no conselho do Clemente (“Coloca 85 km/h no piloto automático e esquece”), comecei a jornada elétrica. Preparei-me bem para isso: praticamente não usei ar condicionado e calibrei os pneus com 50 libras de pressão. A alta calibragem aumenta a autonomia do veículo ao reduzir o atrito com o solo.

A diferença entre a distância até o destino e a autonomia média estimada foi diminuindo ao longo da viagem. Chegando em Ribeirão Preto, ainda estava com pouco menos de autonomia estimada do que o necessário para cumprir meu trajeto. Ainda assim, liguei para o Bechelli agradecendo o convite, mas dispensando a gentileza porque eu estava confiante de que conseguiria chegar ao posto Graal. E não é que, faltando 341 quilômetros, a distância e autonomia restantes se encontraram? Basicamente, após rodar 193 quilômetros, “ganhei” 100 quilômetros de autonomia em relação à estimativa inicial.

Em alguns momentos, a distância ao destino se tornava maior do que autonomia, a até uns 15 quilômetros a mais. Isso ocorria devido à topografia desfavorável, com vários trechos longos em aclive. Nas descidas, entretanto, a regeneração do Bolt mostrava toda sua eficiência e, faltando 25 quilômetros para chegar ao Graal, tinha cerca de 70 quilômetros de sobra. Assim, resolvi aumentar a velocidade do piloto automático para 100 km/h. E…cheguei. Ainda com 31 quilômetros de sobra. Cheguei!!! 532,5 quilômetros percorridos numa só carga (416 km no ciclo EPA, lembra-se?!?). Com esse percurso, bati o recorde do meu colega Marcelo que, com seu Bolt com bateria de 60 kWh (10% menor do que a bateria atual, mas ainda assim imponente), fez impressionantes 480 quilômetros numa só carga. E, até onde eu saiba, por enquanto creio que nenhum outro carro elétrico no país tenha feito percurso maior numa só recarga.

E o que isso vale? Nada. A não ser o fato de que ajuda a mostrar que os carros elétricos atuais já estão aptos para enfrentar viagens que, há dois anos, pareciam impossíveis. E vale para o acervo do museu dos “dinossauros da mobilidade elétrica”, pois esse feito será algo risível em menos de uma década. Há baterias sendo desenvolvidas que prometem 1 mil quilômetros e até bem mais de autonomia. Logo, é como comemorar o uso do primeiro driver de disquete de 5”14 no meu antigo Apple 2 Plus. Impressionante, mas muito em breve, arcaico. E isso me deixa feliz demais!

Voltando aos assuntos mundanos: estava morrendo de fome, pois já eram 14h50min, e fui colocar o carro para carregar. E deu ruim: o carregador não fazia a comunicação com o carro (chama-se handshake). Nem para uso da carga rápida, em corrente contínua, nem para uso em corrente alternada. Quando relatei o problema no grupo dos associados da ABRAVEI, imediatamente o mestre Zen(o) tentou acionar nosso contato na ABB, fabricante do equipamento. Mas eu já sabia que o Wilson estava em férias. E, ainda bem, não respondeu. Férias são para isso mesmo: desligar.

O carregador ficava nesta tela: sem comunicação com o carro.

Fui falar com o gerente do posto, o Sr. Pierre. Expliquei que era da ABRAVEI e que já tinha religado equipamentos semelhantes. Pedi sua ajuda e a chave para abrir o gabinete. E ele, extremamente gentil e solícito, foi no carregador comigo, abriu o gabinete e me permitiu reiniciar o carregador. São dois disjuntores e uma chave-geral. Por via das dúvidas, desliguei e religuei tudo. E…deu certo!!!! Meu plano B era me deslocar 25 quilômetros até o Graal do km 67 da Anhanguera. O plano C era pedir uma tomada emprestada para o Pierre e ficar por umas 6 horas no local. E o plano D era o desonroso e vexatório guincho da Porto Seguro.

Mas, com o carregador funcionando normalmente, o Plano A entrou em ação. E pude aproveitar e almoçar com prazer redobrado. Pena que o governo de SP tenha proibido os restaurantes de servirem no modelo buffet/self service. Mas as opções de pratos executivos (PF) do Graal estavam muito boas. E muito bem servidas. Almocei, tomei um espresso com pastel de nata e comprei uma goiabada cascão. Como falei ao Nivaldo, diretor de marketing da rede Graal, uma “consumação mínima” que tenho prazer em gastar enquanto não cobram pelas recargas. Saí do Graal, 1 hora e 5 minutos depois, com 73% de carga e mais de 300 quilômetros de autonomia.

No final das contas, para cruzarmos o Brasil de norte a sul e de leste a oeste, não precisamos de muitos carregadores rápidos. Com a atual autonomia dos veículos elétricos à venda no mercado, é possível ter pontos de recarga a cada 300 km. Claro que, quando nossa frota for de milhares de veículos elétricos, será necessário ter mais do que um carregador em cada local. Mas, até lá, creio que algo entre cinquenta e setenta e cinco desses carregadores rápidos permitiriam viajar para qualquer lugar do país. E que venha o próximo colega quebrar meu recorde e nos ajudar a expandir os limites do uso do carro elétrico!

EXTRA! EXTRA! Meu recorde durou apenas seis dias. Na última sexta-feira, 22 de maio, meu amigo e também associado da ABRAVEI fez 549,7 km com seu Bolt. E teria condições de chegar ou passar os 600 km. Parabéns, Brandão!!

6 comentários sobre “Sabe aquele papo de que carro elétrico não é para viagens? Já era!

  1. Grande Rodrigo. O novo recordista de autonomia no Brasil. Porém, como vc mesmo disse, acho que seu recorde não vai durar muitos anos não …… kkk

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  2. Parabéns Rodrigo! Seu recorde é um feito histórico para a ABRAVEi e o Brasil. Imagino sua alegria e felicidade com sua viagem “De volta para o futuro”

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