Um feriado eletrizante em Brasília.

Inauguração de vagas com carregadores em hotel e shopping, encontro de veículos elétricos e políticas públicas favoráveis: Brasília desponta como uma das cidades mais receptivas à mobilidade elétrica.

 

Estou em dívida com meu blog e os incríveis leitores que ele possui. A rotina de trabalho, aliada ao fato de morar sozinho e ter que me virar com as lidas domésticas, não tem me deixado parar para relatar os acontecimentos. E foram muitos. E relevantes. Então, vou começar pelo mais recente.

Expedição São Paulo – Brasília. A ida.

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Edgar, eu e nossos pinguins numa das muitas paradas para encher o tanquinho do REx – extensor de autonomia do veículo.

No feriado da Independência partimos, eu e Edgar, presidente a ABRAVEi, rumo à Brasília. Acabei convencendo-o a nos encontrarmos às 5h no posto Graal do km 67 da Anhanguera para, dali, seguirmos viagem com uma boa carga nas nossas baterias, afinal esse posto conta com uma estação de recarga rápida mantida em parceria com o projeto Emotive da CPFL. Comigo, uma menina que se tornou grande parceira de aventuras, minha filha.

Foram mais de 1 mil quilômetros a bordo dos nossos i3. Usamos e abusamos do REx – extensor de autonomia que, com um tanquinho de 9 litros de gasolina, tem a missão de garantir até 140 quilômetros adicionais. E garante mesmo, mas em condições conscientes de condução. Foram dez paradas para abastecimento e cerca de 16 horas de viagem. Mapeei os postos em que deveria parar para abastecer o REx, observando a autonomia do carro, e recebi um alerta do Edgar que se confirmou verdadeiro: apesar de constarem no Google, vários postos de combustível ao longo do trecho no estado de Goiás não existem ou são “fantasmas”, abandonados. Bingo. Justamente o último posto era fantasma. Pior: ficava do outro lado da rodovia e, como tinha um restaurante funcionando, nos fez gastar preciosos três quilômetros para fazer o retorno. E só para descobrir que não existia mais combustível ali há um bom tempo. Mais três quilômetros pra voltar ao sentido certo da rodovia e seguimos.

Cerca de vinte quilômetros mais à frente, e com nossas baterias já entre 30% e 40% (eu acabei bobeando no uso do REx e fiquei com menos bateria do que o Edgar), passamos por um posto que não foi muito bem avaliado por meu presidente quando de sua primeira ida sozinho à Brasília há alguns meses. Com toda minha inocência misturada com excesso de confiança, falei que haveria um posto em mais uns 10 quilômetros, pois havia pesquisado. Que nada. Levamos mais uns 20 quilômetros para achar um posto e cheguei com 14,5% de bateria. Como o caminho até Brasília não teria mais uma grande variação de altitude, com muitas subidas, creio que daria para ir com essa carga, após abastecer o REx, e chegar com uns 10%. Mas, para evitar correr riscos desnecessários, realizamos um procedimento de ligar o REx manualmente, com o carro parado, procedimento esse que é usado para medições de emissão. Apesar de não ser o objetivo, isso acaba carregando um pouco a bateria. Para ser exato, 1% a cada 3 minutos e 46 segundos. Assim, ficamos por mais de meia hora e partimos, ele com cerca de 30% e eu com 27,5% de carga. Mais aliviados, pero no mucho, pois costumamos manter a bateria sempre no mais alto nível possível quando viajamos, de preferência, (bem) acima de 50%. Mas, com essa carga obtida por um método que nosso colega Duda achou ser quase uma “simpatia” ou “mandinga”, seguimos viagem. Paramos ainda mais uma vez para abastecer, já nos arredores de Brasília, mas apenas para garantir que teríamos autonomia suficiente para deslocamento ao chegar na capital, pois não sabíamos exatamente o que nosso “homem em Brasília”, Rogério, tinha em mente ao nos receber. O Rogério, que é conselheiro e diretor da ABRAVEi em Brasília, redefiniu, por sinal, o sentido de ser multitarefa, cuidando de, pelo menos, três eventos bastantes importantes e sensíveis, além de suas questões profissionais.

Enfim, chegamos. Nos encontramos na casa do Rogério e ele nos levou ao Mercure Líder Brasília, hotel que nos cedeu, graciosamente, suítes durante o feriado. Como a vaga para carro elétrico com carregador (wallbox) que seria inaugurada no dia seguinte já estava funcional, o Edgar deixou seu carro nela e, eu, utilizei um carregador portátil na vaga pessoal do Rogério, que trabalha no mesmo prédio do hotel e cuja vaga de garagem tem tomada.

 

A ameaça terrorista do Hoverboard

 

O dia seguinte, 8 de setembro, começou cedo, pois às 8h deveríamos levar nossos carros à loja da Restaura Car, no Brasília Shopping, a duas quadras do hotel. O Sr. Bonfá, proprietário e franqueador da Restaura Car, ex-professor e extremamente simpático, nos deu de presente uma lavagem completa com enceramento. E, de brinde, uma aula sobre cuidados com o veículo. Figuraça, o Bonfá.

A idéia era deixar o carro para os cuidados e passear de manhã com filha no Parque da Cidade, ela de hoverboard elétrico e eu de patinete movido a jumento (eu, no caso). Mas, não sei se pelo fato do hoverboard ter vindo meio solto no porta-malas do carro, ou pelo tombo que minha filha levou com ele no hotel, o treco simplesmente parou de funcionar, acendeu uma luz vermelha e, pra piorar, ficava apitando incessantemente como se fosse explodir. Resumo da ópera: perdemos a manhã inteira tentando achar quem consertasse. No fim, abri o aparelho e desconectei a bateria. Ao reconectá-la, voilá, o maledeto voltou a funcionar normalmente. Só que, desta vez, não desligava nem com reza braba. E, se ficasse sem usá-lo por alguns minutos, ele apitava também. Desconectei novamente a bateria, perdemos a manhã, mas o artefato desenvolvido pelo Estado Islâmico não explodiu.

À tarde, tour pela Brasólia com a filha e a namorada, conhecendo alguns dos principais cartões-postais da cidade. E uma visita ao memorial JK que me deixou com lágrimas nos olhos. Juscelino foi o maior estadista que já tivemos no país em minha opinião. E ver um pouco de sua história, bem como a da capital federal, é emocionante.

 

Inauguração da primeira vaga para carros elétricos em hotel

À noite, houve a inauguração formal da vaga para carros elétricos disponibilizada e mantida pelo Mercure Lider. O primeiro da rede Accor em toda a América Latina, segundo afirmou o Fernando, gerente do hotel. Mas, arrisco dizer que é o primeiro em geral, independente da rede da qual faz parte, a oferecer tal comodidade. O prédio também abriga, além do hotel, conjuntos comerciais. E seu síndico, Alberto, morou 30 anos nos EUA e trabalhou com venda de veículos. Por isso, ele já estava “contaminado” com o vírus da mobilidade elétrica e abraçou junto com o Mercure Lider a iniciativa do nosso “Abraveiano” Rogério.

A inauguração contou com uma cerimônia bem organizada, com serviço de coquetel, corte da fita inaugural e uma singela, mas extremamente sincera, homenagem da ABRAVEi à iniciativa, na figura de uma placa metálica entregue aos senhores Fernando e Alberto. Mais uma vez, a Volvo apoiou a ABRAVEi cedendo um belíssimo XC90 híbrido plug-in para estrear a vaga com recarga oficialmente.

Para fechar o dia com chave de ouro, jantamos todos nós, da ABRAVEi, com nossas respectivas esposas/namoradas e filhos com o empresário que está trazendo a montadora chinesa Zotye para o país. Se tudo der certo, ao longo de 2018, teremos utilitários e carros da marca, elétricos claro, a preços extremamente convidativos. Como não sei o quanto a informação é sigilosa, paro por aqui. Mas fiquei animado e coloquei meu nome na lista de espera de um dos veículos que devem vir.

 

PRIMEIRO ENCONTRO DE VEÍCULOS ELÉTRICOS DE BRASÍLIA. DIA 9 DE SETEMBRO

O subtítulo merece estar todo em maiúsculas, pois representa o pique, a dedicação, a simpatia, o desprendimento, a atenção ao público e aos colegas, a amizade e todos os adjetivos que pudermos pensar e que contagiaram todos os participantes e expositores. Um evento que teve o inestimável apoio do Brasília Shopping, da Volvo, da Eurobike, da BYD, da Eletrobrás, da Itaipu Binacional, da Vela Bikes elétricas, Restaura Car e do Mercure Lider Brasilia. E, claro, que contou com os Abraveianos Duda, Edgar e Rogério (o incansável multitarefa), além de mim. Aliás, o Rogério merece, mais uma vez, uma menção especial pois, de fato, ele foi o responsável por transformar o evento em realidade. E, também, um agradecimento especial ao Elifas Gurgel, o “professor pardal” que converteu um Gol em elétrico em 2009 e que nos inspira a todos. Corro o risco de deixar algumas pessoas das empresas que estiveram presentes melindrados por não lembrar o nome de todos, então, preferi citar as empresas mas, por favor, o agradecimento é para vocês que estiveram lá e ficaram das 9h às 15h conosco.

Durante o tempo do encontro, passaram pelo local centenas de pessoas. Extremamente interessadas, de todas as idades. A receptividade ao tema da mobilidade elétrica é impressionante. Eu fiquei rouco de tanto que falei com os visitantes. E, mais uma vez, estou convicto de que o que falta para o carro elétrico se popularizar no país é preço. Precisamos de carros com valores acessíveis a quem tem condições de comprar um carro à combustão. Mas isso é assunto para outro post. Infelizmente, não tirei muitas fotos, mas o Rogério fez um vídeo e dá para ter uma visão bem abrangente do que foi o evento neste link.

 

Inauguração da vaga para carro elétrico do Brasília Shopping

Fizemos uma breve pausa no evento, deixando meu xará da Volvo responsável pelos 12 veículos expostos, para podermos inaugurar a vaga para carros elétricos do Brasília Shopping. Além da administração do shopping, esteve presente à inauguração o Secretário de Estado de Gestão do Território e Habitação do DF, Thiago Andrade que, aliás, é bem jovem e com uma visão super alinhada com a ABRAVEi em prol da mobilidade elétrica.

Vaga inaugurada, de volta ao batente. Retomamos o trabalho de evangelização junto ao público que rodeava os carros em exposição. Logo em seguida, o Edgar anunciou que partiria para São Paulo. Sozinho e depois de todo o desgaste do evento. Não teve nem chance de fazê-lo muda de idéia. E lá se foi nosso presidente para o retorno à São Paulo. Às 15h, eu já não aguentava mais: sem voz, faminto (pois não almocei), e privado da companhia da namorada e da filha – mas feliz, muito feliz pela convicção de que plantamos uma sementinha da mobilidade elétrica sustentável em cada pessoa com quem conversamos, fui embora. E com um galãozinho de combustível de 5 litros que o Rogério me cedeu para não passar aperto no trecho do estado de Goiás e seus postos-fantasma (valeu, Rogério!!).

 

O retorno

Combino com a filha que vamos acordar umas 6h e pegar a estrada às 7h. Mas, às 3h40min da madrugada, minha filha acorda com o nariz sangrando. E muito. Isso é devido à pouca umidade do ar de Brasília.

Ela não chorou, nem se abateu. Estava em seu próprio quarto, limpou-se e apenas me chamou via whatsAPP quando já tinha estancado o sangramento. Que corajosa. Bom, já que acordamos, resolvemos pegar a estrada. Despedi-me da namorada que, felizmente, conseguiu voltar a dormir e 4h30min estávamos na estrada.

Foram 15 horas de viagem ao todo. Super tranquila, sem nenhuma surpresa. E na companhia da filha, tornando esta expedição uma aventura daquelas que fazem parte da história da nossa vida. Evidentemente, usei o REx: foram 8 paradas para abastecimento e um total de 51,33 litros com uma média superior a 19 km/l. Gostaria de poder rodar em modo exclusivamente elétrico. Mas isso só seria possível com mais postos de recarga rápida ao longo do caminho. Mesmo os carros elétricos com as maiores autonomias disponíveis atualmente no mundo não seriam capazes de ir de São Paulo à Brasília sem recarregar em algum momento. De volta à São Paulo, meu carro voltaria a rodar apenas em modo elétrico, sem nem manter gasolina no tanquinho do REx, o que me deixa com a consciência tranquila. Ao longo do caminho de volta, apenas um congestionamento de cerca de uma hora na rodovia dos Bandeirantes após o último pedágio e até o Posto Graal que fica no Km 56 e que conta com uma estação de recarga rápida. Cheguei ao posto com 51% de bateria. Eu e minha filha tomamos um sorvete, fizemos um “pipi-stop” e, 20 minutos depois, partimos com 92% de bateria. Milagrosamente, o trânsito fluiu e pude rodar a 120km/h na rodovia e 90 km/h nas marginais sem nenhuma parada ou percalço.

Foram 4 dias intensos, mais de 2 mil quilômetros, 32 horas de viagem ao todo, centenas de pessoas impactadas, poucas horas de sono e muitas amizades. E valeu a pena. Tenho a consciência de que estamos fazendo parte da história, e fazendo a própria história. Daqui a uma década ou duas, seremos vistos como os bandeirantes da mobilidade elétrica, que ajudaram a abrir o caminho para que carro elétrico se tornasse uma realidade no Brasil.

4 comentários sobre “Um feriado eletrizante em Brasília.

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